Sinditêxtil-SP apresenta cenário do primeiro semestre de 2026

O primeiro semestre de 2026 trouxe um cenário de desaceleração para a indústria têxtil e de confecção brasileira. Embora o varejo de vestuário tenha apresentado leve crescimento nas vendas, a produção industrial perdeu força, as importações aceleraram e o mercado externo tornou-se ainda mais desafiador. Esse foi o panorama apresentado pelo Sinditêxtil-SP durante encontro realizado com a imprensa especializada, na ABIT, em São Paulo, conduzido pelo presidente Luiz Arthur Pacheco e pelo economista Haroldo da Silva.

Representando os principais veículos do setor, jornalistas participaram da apresentação dos indicadores econômicos e discutiram os desafios que vêm impactando toda a cadeia produtiva, desde os fabricantes de fibras e tecidos até a indústria da confecção.

Produção perde ritmo enquanto o consumo segue moderado

Os números mostram uma mudança de cenário em relação à recuperação observada ao longo de 2025. Entre janeiro e maio de 2026, a produção têxtil paulista recuou 1,4%, enquanto a produção de vestuário registrou queda ainda mais acentuada, de 8,3%. No Brasil, o desempenho foi ainda mais fraco, evidenciando um ambiente de menor demanda industrial. Em contrapartida, o varejo de vestuário em São Paulo cresceu 9% no período, indicando que parte do consumo continua sendo abastecida por produtos importados.

Importações avançam e ampliam pressão sobre a indústria nacional

Um dos principais pontos destacados pelo Sinditêxtil-SP foi o forte avanço das importações.

No primeiro semestre, as compras externas de produtos têxteis cresceram 7,9% em São Paulo, enquanto as importações de vestuário dispararam 30,3% em volume. Em âmbito nacional, esse crescimento chegou a 54,1%, reforçando a competitividade dos produtos asiáticos sobre o mercado interno.

Ao mesmo tempo, as exportações paulistas perderam força. Entre janeiro e junho, houve retração de 17,1% no volume exportado pelo Estado, ampliando o déficit da balança comercial do setor.
Para o denim, esse movimento é especialmente relevante. A entrada crescente de peças prontas de baixo custo, de outros tecidos que não seja o denim, pressiona toda a cadeia nacional — das tecelagens às lavanderias e confeccionistas — reduzindo margens e tornando ainda mais necessária a diferenciação por inovação, tecnologia e valor agregado.

Emprego ainda resiste, mas tendência inspira cautela

Apesar do ambiente desafiador, o setor fechou os cinco primeiros meses do ano com saldo positivo de 885 empregos formais. Entretanto, quando analisado o acumulado dos últimos doze meses, o resultado permanece negativo, refletindo o impacto da desaceleração na produção industrial e na confecção. “O resultado representa uma reversão frente a 2024, quando a cadeia havia apresentado saldo positivo de cerca de 2 mil vagas, e evidencia a maior fragilidade da confecção em um contexto de custos financeiros elevados e pressão competitiva crescente”, aponta o presidente do Sinditêxtil-SP, Luiz Arthur Pacheco.

O cenário nacional apresenta comportamento semelhante: geração de empregos no acumulado do ano, porém perda de postos quando considerada a movimentação dos últimos doze meses.

Competitividade passa pelo ambiente tributário

Outro tema central da apresentação foi a importância da manutenção do crédito outorgado de ICMS para o setor paulista.

Segundo estudo apresentado pelo Sinditêxtil-SP, desde a implantação do incentivo estadual, em 2017, São Paulo conseguiu recuperar parte da participação perdida para outros estados em indicadores como emprego, faturamento e valor da transformação industrial. A entidade defende que a continuidade desse mecanismo é fundamental para equilibrar a competição diante da chamada “guerra fiscal” existente no país.

Tarifas internacionais também entram no radar

Durante o encontro também foram analisados os possíveis impactos das medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos, especialmente relacionadas à ampliação da utilização da Seção 301, instrumento que pode resultar em novas tarifas sobre produtos brasileiros.

Segundo a avaliação apresentada pelo economista Haroldo da Silva, esse cenário aumenta a necessidade de diversificação de mercados e reforça a importância de investimentos em competitividade para a indústria nacional.

Um setor que segue estratégico

Mesmo diante dos desafios conjunturais, a indústria têxtil paulista mantém papel de liderança nacional. O Estado concentra cerca de 6,5 mil indústrias, emprega aproximadamente 342 mil trabalhadores diretos e responde por 27,8% do faturamento brasileiro da cadeia têxtil e de confecção.

O encontro promovido pelo Sinditêxtil-SP reforçou não apenas a transparência na divulgação dos indicadores econômicos, mas também a importância do diálogo entre a entidade e a imprensa especializada para ampliar o debate sobre competitividade, inovação e políticas públicas capazes de fortalecer uma das cadeias industriais mais relevantes do país.

Para o setor de denim, que reúne parte significativa da produção têxtil nacional, a mensagem é clara: a recuperação passa pela inovação, pela agregação de valor aos produtos e por um ambiente de negócios que permita competir em condições mais equilibradas frente ao avanço das importações.

Exportação de jeans entra no debate

Durante o encontro, o Guia JeansWear levantou uma questão sobre a necessidade de ampliar a presença internacional da indústria brasileira de jeanswear.

A diretora do portal, Iolanda Wutzl, questionou se, diante do cenário de escassez de mão de obra, elevada carga tributária e crescente concorrência dos produtos importados, não seria o momento de o Sinditêxtil-SP, em parceria com a ABIT, desenvolver mecanismos mais efetivos para incentivar as empresas brasileiras a exportar.

“O Brasil é reconhecido mundialmente pelo estilo, modelagem diferenciada e qualidade do seu jeans e figura entre os cinco maiores produtores de denim do mundo. No entanto, ainda não existe uma cultura consolidada de exportação de moda em escala. Falta um trabalho mais próximo das indústrias, especialmente das grandes confeccionistas de jeans, para ajudá-las a acessar o mercado internacional. Hoje, iniciativas como as da ApexBrasil acabam concentrando maior participação de marcas autorais, enquanto grandes fabricantes de jeans, que possuem capacidade produtiva para atender mercados externos, ainda exportam muito pouco.”

Em resposta, o presidente do Sinditêxtil-SP, a Lilian Kaddissi – Superintendente de Marketing e Negócios da Abit/Sinditêxtil –SP , informou que a entidade já vem discutindo esse tema em conjunto com representantes da cadeia do denim, especialmente com as tecelagens, e que há estudos para estruturar iniciativas capazes de estimular e ampliar a participação da indústria brasileira de jeanswear no mercado internacional.

Segundo ela, o objetivo é desenvolver mecanismos que fortaleçam a cultura exportadora do setor e criem novas oportunidades para que o denim brasileiro amplie sua presença no exterior.

“De forma geral, 2025 foi um ano de recuperação moderada para a indústria têxtil paulista, mas de perda de dinamismo para a confecção, com reflexos no emprego e ampliação do déficit comercial. O desempenho do período reforça a importância de medidas voltadas ao fortalecimento da competitividade da cadeia produtiva, à promoção de isonomia concorrencial frente ao produto importado e à ampliação de mercados externos para os produtos paulistas”, analisa Pacheco.

Fonte: GuiaJeansWear

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